AMADO BATISTA O CANTADOR DE HITÓRIAS: (A FALÊNCIA)

29 de mar de 2013


A falência (Continuação 2)

 _Eu ia naqueles carrinhos caindo aos pedaços. Muitas vezes deixei de cumprir a agenda por que o carro quebrava na estrada e eu não conseguia chegar ao local do show. Em determinados momentos, eu chegava ao local que ia acontecer o show e tinha passado uma ventania que jogava o circo no chão - diz ele, gargalhando e gesticulando para ilustra a cena.

 Naquela época, ele ficava triste ao ver o seu ganha-pão no chão, mas, quando contou o episódio, Amado gargalhou muito.

 Um rapaz que viera do nada, que conseguira construir com dificuldades um patrimônio e tornar-se classe média, viu-se naquele momento na situação em que começar, do nada.

_É aquela história: "O boi engorda com o olho do dono", e é verdade.

 Amado deixou de administrar suas lojas e de visitálas com frequência, acabou por ter de vendê-las, para pagar suas dívidas. Ficou com o saldo bancário no vermelho.

 Desistir? Que nada. Isso dava mais força para ele continuar.

 E mais uma vez Amado começou de baixo. Cada vez que algo ruim acontecia com ele, mais vontade de crescer e alcançar novos horizontes ele tinha.

 Amado ia fazer shows em cidades tão pequenas que achava que não teria público. Na hora do show, o local ficava lotado, pessoas da cidade e de regiões vizinhas gritavam seu nome. Ele subia ao palco e era aquela loucura, gritos e assovios o faziam ter certeza de que estava no caminho certo. Muitas vezes, chegou a ser saudado por garimpeiros, que tiravam o revólver da cintura e davam tiros para o alto. Sodré norria de medo dessa peripécia do garimpo.

 Para Amado tudo era festa, até quando ele tinha que tomar banho de caneca envolto por uma cortina que só cobria o tronco, deixando cabeça e pés de fora, e seus fãs passavam pedindo autógrafos.

 A preciridade era tamanha que ele viajava em aviões monomotores com portas remendadas com Durepox.

 E os bancos? Simplesmente grades latas de óleo vazias, usadas com uma espécie de banqueta. O cantor e os músicos viajavam quilômetros e mais quilômetros sentados em latas.

 Amado então ligou para Reginaldo -  que não viajava com ele - e abriu o seu coração.

_Reginaldo, bicho, tô com a respiração ofegante. Vou ao médico e ele diz que eu não tenho nada. O que é isso?

  Sodré, que sempre foi muito curioso com relação à nedicina, respondeu:

_Rapaz, isso parece Sídrome do Pânico.
_O que é isso? - perguntou Amado.
_É uma doença causada por alguma frustração, um trauma psicológico qualquer. Você passou algum medo recente?

 Amado começou a contar sobre suas viagens de avião.

 Naquela época, as pistas de pouso e decolagem eram tão curtas que cauda do monomotor era amarada em uma árvore e o piloto acelerava até não poder mais, para pegar impulso, como se faz com carrinho de fricção. Quando a corda estava totalmente esticada, outra pessoa vinha e "tchunf" cortava a corda e o avião decolava. Tamanho era medo que Amado passava que ele sempre pensava que iria morrer.

 Foi uma época difícil para o cantor, que, apesar de ter estourado no Brasil inteiro, ainda estava no inicio da carreira. Ele trabalhava muito e ganhava pouco.

E o que ganhava mal dava para pagar o aluguel, se alimentar e sobreviver.

_Lembro do Amado já estar famoso, mas chegava lá em casa com um carro velho, que não pegava, e eu tinha que sair empurrando - contou Sodré.

 Já não dava mais para viver daquele jeito. Goiânia tornara-se pequena para tanto sucesso.

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